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Mykola Szoma - o poeta da diáspora ucraniana

Meus versos como torrentes:

50 quadras ou quartetos / Mykola Szoma                       
                                                                
1.
Daqueles lânguidos murmúrios,
das folhas secas pelo chão,
nascia a tempestade... Furor bravio
que arrebatou-me o coração.

2.
Se ela quisera dominar-me um dia
- fazer de mim um servidor leal...
Que coisa fácil! Tão somente deveria,
incontinenti, dar-me o seu amor total.

3.
Se no lodo lírios nascem e
se as sombras a luz refletem;
porque meus sombrios cantos
só germinam, mas não florescem?


4.
Se naquela madrugada sonolenta
dos teus braços eu não fugisse,
com certeza, ver-te-ia morta...
Bem que a tua mãe me o disse!

5.
Na tua vestimenta rococó
- cheia de placas, de costuras
tu somente mostras e tão só,
que não tens gosto nem cesuras...

6.
No jardim de faustas flores
mil saudades sinto eu...
- É que flores e saudades
se misturam no Ego meu.

7.
De bombinha transvaliana
- que ao tocar o chão explode;
é o meu coração enamorado
- ao te ver, em pranto explode.

8.
De hortênsia azul, rosada e branca,
em capítulos disposta, eu cerzi com arte,
em torno dela, uma muralha indevassável.
Hoje, ela vive intocável. E eu à parte...

9.
Buzinei à porta dela e
o pai dela não gostou...
Disse ele: "Que ousado!
Com respeito me faltou..."

10.
Semeei amores. Flores espalhei.
- Colhi espinhos e desamores...
Ah! Que vida ingrata essa!
Mas onde foi que eu errei?

11.
Joguei na loto toda minha esperança,
ao nenúfar e ninféia me agarrei...
Qual não foi o meu espanto, gente!
- Ninfas me susteram... Acordei.

12.
Se de Tágides não tenho auxílio
nem bebi das águas de Hipocrene;
por que hei de fazer versos deca...
numa fúria sonorosa e solene?

13.
Ao trajar-me mui decente
tão somente quero estar...
Poius, se o hábito não faz o monge
nem, por isso, o monge vai blefar.

14.
De verão as chuvas quentes
fazem bem - purificam o ambiente.
No inverno... Que desgraça!
- Gelam até a alma da gente.

15.
Do trampolim dos teus amores,
às minas de ouro queres saltar.
Ai! Esse teu geito de agir funambulesco
um dia, ainda, te pode prostrar.

16.
Cantilena dos meus sonhos
me acossa a todo instante.
Mesmo estando em devaneios,
cantos os sonhos de infante...

17.
Presto jocoso dos teus poemas
forma sonatas no meu sentir...
E canto eu, ao dos flautins e de flautas,
graciosos ritmos. Apenas, quero sorrir.

18.
Cartomante me dissera, um dia,
que eu iria ser feliz com ela.
Acertou em cheio. Sou feliz -
passo os dias, ao lado dela...

19.
Transitivos são os verbos
que um complemento pedem.
Mas, no amor são transitivos
os amantes que não cedem.

20.
Serralheiro corta ferros
e com eles faz a arte...
Meu amor me corta o peito
ao de mim zombar. Desfaz.

21.
No jogo ardiloso da vida
só vencem bravios e fortes.
Os fracos, cansados, vadios,
porque indolentes, nem podem jogar.

22.
Se dos teus sonoros cantos
sabiá, eu pudesse me safar...
Que trinado mais canoro ouviria?!
Não há outro passarinho a imitar!

23.
No recôndito dos teus interiores
há mistérios indesvendáveis!..
E se alguém tentar esmiuçá-los,
eu previno: eles são indecifráveis.

24.
Louvar a Deus, é lei suprema.
Amar ao próximo, também...
Mas comportar-se como gente
- eis a conduta. A todos convém.

25.
Ao som dos plangeres da viola
cantas, poetas, um canto novo!
Canto brasílida - sublime e belo.
Canto que cante o feito do povo.
26.
Uma obra libertária - um poema
é uma flor desabrochando...
Qual rebento, vida da primavera,
para o mundo entulhado acenando.

27.
Tolheu-me a sorte favores e harmonias
- da lei do acaso provei a desventura.
Da guerra, cedo senti a fria morte
- vi meus irmãos caindo na sepultura!

28.
Qual Fausto de Goethe a minh'alma
procura o seu remorso acalmar...
Por ter cometido o grave pecado,
hoje padeço. Eu quis te amar.

29.
Metástase da vida eterna - a imortal,
tu és do núcleo assente a sede...
És climax da cósmica herança milenar.
Momento atual! A estridente síntese final.

30.
Construir algo sobre o nada e
que esse algo se mantenha em pé,
não vejo como! Não entendi...
Monsier Flaubert, como é que é?

31.
Nos campos abertos, em noites de lua,
quisera meus cantos doridos cantar...
Talvez até à Lua o meu canto chegasse!
Ela em ouvir-me, talvez, quizesse me amar.

32.
Formosa heroina dos meus devaneios,
nos teus sonhos, não sonhas comigo? Não?
Pois eu, nos sonhos meus, vejo-te sempre!..
E, para sempre, quero pedir a tua mão.

33.
Eu canto meus cantares de loucura,
pois loucura é a vida de alegria.
E se viver sem cantos eu tivesse de,
mais fortes os cantos meus seriam.

34.
Suguei o cálice de vitupérios.
De vossas mãos sustive o peso.
Hoje dizeis ser meu amigo?
Pois vós sois crápula. Sem pejo!

35.
Dizeis adrede que sois humanos,
porque nascestes como tais.
E eu vos digo, de mente sana,
que sois farsantes marsupiais.

36.
Sonambulando pelas ruas asfaltadas
sem nexo,sem destino, quantos não há?
Serão seres viventes? Ou serão manes?
Pelo aspecto dos semblantes... Será?

37.
O núcleo, em mim jacente,
do meu resquício imortal,
conduz-me célere ao imanente
- para além da forma temporal.

38.
Se, tão somente, crer bastasse e
ser fiel devoto só chegasse, oh!
quanta gente crédula e sem pejo
do céu às portas não adentrasse!

39.
Por que ignoto ser é hoje a moda?
Será o medo de se salientar?..
Ou, por não ter nada na cachola,
melhor é precaver-se a se mostrar?

40.
Do céu nublado a tensa fúria é tal
que mal aguarda a hora de explosão.
E sinto medo - parece até hora fatal!
Do canto meu, findou só a ilusão...

41.
Seráfico modo dos teus gestos
- empunhando a cruz-de-malta...
Significa o quê? És, acaso, um
devo crente? Ou um simples peralta!

42.
Não! Por favor, não digas nada.
Já cansei dos teus lamentos...
Hoje, eu quero espraiar-me à toa.
Sol e água. Quero uma vida boa.

43.
Amarrilho de esperanças,
que ataste os sonhos meus.
Vem atar-me aos seios dela
- sufocar-me nos braços seus.

44.
Se nos cantos meus eu canto,
sem cessar, os teus encantos;
algo, então em mim se passa
- ou, porque te amo; ou, por pirraça.

45.
Seresteiro da seresta
da saudade de acolá...
Cante-me de novo o canto
que transporte-me pra lá.

46.
Com medo da morte, lutamos pela vida.
Com medo da vida, queremos morrer...
E assim vivemos, o dia-adia nosso,
até que a morte nos convoque: Volver!

47
Ao som de um piano 'allegro'-lento
imaginei valsar-te docemente...
Não era piano. Nem tu valsavas.
Eram teus prantos. Tu choravas.

48
Privei os seus abraços (dela).
Beijei os lábios rosa seus. E,
no regaço dos seus seios macios
sonhei, sonhando os sonhos meus.

49
Montanha maldita dos meus desencantos.
Subi tanto acima que sinto-me um rei!..
Sob os pés jazem lindas planícies. E,
eu solto no espaço... Agora, o quê farei?..

50.
Construi mil castelos na aréia.
Outros tantos, nas ondas a flutuar.
Veio a maré e, na fúria dela,
levou os meus castelos para o mar.

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